Excerpt from this interview was published in Portuguese language in the
Brazilian newspaper O Estado de S. Paulo (www.estadao.com.br, September 11, 2001).
The interview was conducted by email with Joa Magalhaes.
Philip Emeagwali, � doutor em computa��o pela Universidade de Michigan e coleciona pr�mios, entre os quais o Gordon Bell, conferido somente a g�nios da tecnologia. O ex-presidente Bill Clinton prestou-lhe homenagem p�blica e chamou-o de Bill Gates da �frica. Por tr�s de seu sucesso, est� um novo e radical computador que ele batizou de M�quina da Conex�o, capaz de fazer 3,1 bilh�es de c�lculos por segundo. Por Jo�o Magalh�es.
|
Philip Emeagwali, 46 anos, � casado com a biom�dica Dale Brown e papai coruja de Ijeoma Emeagwali, de 10 anos.
 |
Philip Emeagwali sentou na sala de estar da fam�lia e acionou o cron�metro. Estava furioso: seus amigos jogavam futebol e ele tinha de ficar ali, pelas proximas tr�s horas.
"Est� pronto?", perguntou o pai.
Philip sabia que tinha apenas 36 segundos para resolver cada uma das 300 quest�es. N�o havia tempo suficiente para anot�-las, de modo que teria de fazer tudo de cabe�a.
Seu pai disparou: �Mohammed teve acerto de 88 por cento em tr�s testes de matem�tica. No primeiro, acertou 92 por cento. No segundo, 84 por cento. Que porcentagem obteve no terceiro teste? Philip n�o titubeou, a resposta estava na ponta da l�ngua. Vieram novas e mais dif�ceis perguntas. Philip n�o errou uma. James Emeagwali sorriu com uma ponta de orgulho. Ele sabia que o filho de 8 anos n�o era um menino comum e que, a despeito de sua pobreza, se tornaria uma celebridade.
Acertou. Hoje, o vaidoso Philip Emeagwali, � doutor em computa��o pela Universidade de Michigan e coleciona pr�mios, entre os quais o Gordon Bell, conferido somente a g�nios da tecnologia. O ex-presidente Bill Clinton prestou-lhe homenagem p�blica e chamou-o de Bill Gates da �frica.
Philip cresceu na cidade de Onitsha, no sudeste nigeriano. Era t�o brilhante na escola prim�ria que seus professores s� o chamavam de Calculus. "Quase ningu�m sabia meu nome verdadeiro", ele conta.
Mas havia vezes em que seu talento natural trabalhava contra ele. Em 1965, aos 10 anos de idade, foi acusado de colar nas provas para o Saint Georges Grammar School e sua admiss�o ao gin�sio foi negada. O motivo? Ele acabou o exame, programado para 1 hora de dura��o, em apenas cinco minutos, com 100 por cento de aproveitamento. A escola n�o acreditou que o garoto mirrado e pobre pudesse realizar a fa�anha.
O que tornou os feitos de Phlip mais extraordin�rios � que ele e a fam�lia viveram os horrrores da guerra civil. "Dorm�amos em campos de refugiados, edif�cios abandonados e casas bombardeadas. Fic�vamos em longas filas para receber comida de organiza��es de caridade", ele lembra. O sofrimento valeu. Fez dele um jovem psicologicamente forte e equipou-o com grande senso de determina��o e vis�o.
Aos 17 anos, autodidata, ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Oregon, onde estudou matem�tica. Depois, foi para a Universidade George Washington. L�, conseguiu dois graus de mestre: um na �rea de engenharia civil e ambiental e outro na de engenharia costeira e oce�nica.
Mais tarde, iria trabalhar na constru��o civil, projetando auto-estradas em Maryland, e operando represas em Wyoming. Hoje, � consultor em computa��o, Internet e tecnologia da informa��o. Por tr�s de seu sucesso, est� um novo e radical computador que ele batizou de M�quina da Conex�o, capaz de fazer 3,1 bilh�es de c�lculos por segundo.
Ele teve a id�ia observando uma colm�ia. "Nenhuma outra criatura trabalha com mais efici�ncia do que as abelhas. Por que n�o programar um computador para que ele se sirva de outros milhares? Sua rapidez e desempenho n�o seriam fant�sticos?", ele pensou.
E fez: atrav�s, da Internet, p�s 65.000 micros em conex�o, um superc�rebro digital que solucionou um dos 20 mais complexos quebra-cabe�as industrais: entender como o petr�leo flui debaixo da terra, de modo que se pudesse extra�-lo em grandes quantidades, a baixo custo. A descoberta rendeu bilh�es de d�lares para os Estados Unidos. Agora, a M�quina da Conex�o est� sendo utilizada tamb�m em dezenas de importantes projetos internacionais de meteorologia, ci�ncia espacial e medicina.
Philip Emeagwali, 46 anos, � casado com a biom�dica Dale Brown e papai coruja de Ijeoma Emeagwali, de 10 anos. Gosta de futebol, de nadar e jogar t�nis.Tem uma bela casa nos arredores de Washington e � dono de uma fortuna pessoal de 300 milh�es de d�lares, parte da qual ele destina a fam�lias nigerianas carentes. Por e-mail, concedeu essa entrevista � Maga.Zine
Maga.Zine - Fale um pouco de seu passado, de sua vida na Nig�ria.
Por volta de 1550, a escravatura for�ou meus ancestrais a migrarem de Benin para Onitsha (Oh-nih-chaah), cidade em que nasci. Onitsha (Oh-nih-chaah) � corruptela de Orisha (Oh-rih-chaah), a religi�o africana. Os portugueses mandaram para o Brasil milhares de escravos orishas. Os brit�nicos e espanh�is tamb�m os exportaram para ilhas do Caribe, principalmente para Cuba e Trinidade. A influ�ncia dos orishas � vista hoje nos ritos, m�sica e cren�as de brasileiros e povos de l�ngua espanhola. A minha inf�ncia na Nig�ria n�o foi das piores. Eu fazia parte do coral de uma Igreja Cat�lica e fui coroinha de padres irlandeses. At� que veio a guerra civil (1967-1970), fui for�ado a sair da escola e ir para um campo de refugiados.
Como era a vida nesses campos?
Terr�vel. �ramos cinco milh�es a fugir do ex�rcito nigeriano, com muito medo, pois eles n�o faziam prisioneiros, matavam sem piedade � s� em Onitsha trucidaram 2.000 homens. As mulheres eram estupradas. Por cinco vezes escapamos deles. At� que Onitsha foi capturada. Os que tiveram sorte, como eu, conseguiram se esconder em escolas abandonadas. Eu passava os dias pescando no Rio Niger e apanhando cocos para comer. A fome era assustadora. Devor�vamos at� cachorros, quando eles apareciam.
A Nig�ria n�o est� bem na comunidade internacional. O que o senhor pensa a respeito?
N�o d� para discutir todos os problemas da Nig�ria num s� dia. Acredito que a situa��o s� ser� resolvida quando se der educa��o aos jovens. Infelizmente, o governo n�o olha para esse aspecto. O dinheiro que deveria ser investido em educa��o foi esbanjado em projetos megaloman�acos, como o complexo de a�o de Ajaokuta, e com o ex�rcito. Gana despende 27% de seu or�amento em educa��o, enquanto que a Nig�ria, o nono maior produtor de petr�leo do mundo, gasta apenas 10 %. Como resultado, Gana tem uma renda per capita duas vezes maior do que a da Nig�ria.
O senhor � famoso e o mundo inteiro chama-o de Bill Gates da �frica. Como v� essa compara��o?
Os africanos ficaram ofendidos quando o presidente Bill Clinton descreveu-me como o Bill Gates da �frica. Eles disseram: "Bill Gates � que � o Philip Emeagwali da Am�rica". Bill Gates e eu somos experts em tecnologia da informa��o. Ele � um empres�rio e eu sou um cientista. Bill Gates se aproveita do conhecimento e das id�ias de pessoas como eu, que criaram computadores e a Internet.
A que o senhor atribui seu sucesso?
Eu trabalho duro e acredito no ditado que diz: "Sair cedo da cama para fazer a colheita, torna os homens saud�veis, ricos e s�bios". E sempre falo para mim mesmo que se as coisas n�o d�o certo da primeira vez, deve-se tentar de novo.
O que a tecnologia pode fazer pela �frica?
A tecnologia gera riqueza e desenvolvimento. E como disse Kwame Nkrumah (l�der de Gana, prop�s a cria��o de uma �frica unificada) , socialismo sem ci�ncia � in�til. Ent�o, o que a �frica precisa � de bons cientistas para se tornar um continente rico e desenvolvido.
Quem o influenciou em seu trabalho?
O matem�tico africano Euclides. Ele nunca p�s os p�s fora da �frica e viveu numa cidade predomenantemente negra, ao lado de uns poucos imigrantes judeus e gregos. Ele � lembrado como o mais importante matem�tico de todos os tempos e seu livro Os Elementos s� perde em tiragens para a B�blia.
Como o senhor chegou � M�quina da Conex�o.
O computador moderno � produto de uma s�rie de inven��es, desde que, h� dois mil anos, na China, surgiu o �baco, que era um engenho de calcular. Em cada gera��o, cientistas o reiventam. Eu sou um deles. Fui o primeiro a demonstrar que muitos computadores interligados s�o mais r�pidos do que um s�, com um superprocessador. Se duas cabe�as pensam melhor do que uma, o que dizer ent�o de 65 mil cabe�as. Por essa raz�o, programei um computador para trabalhar com milhares de outros. Em 1988, compartilhei 65 mil processadores que conseguiram realizar 3,1 bilh�es de c�lculos por segundo. Agora a Apple e a IBM est�o se valendo da minha cria��o.
Desde quando o senhor acessa a Internet e para qu�?
Desde 1974. Em 1970, era apenas uma rede internacional de computadores, freq�entada por poucos acad�micos que se comunicavam imprimindo palavras em teletipos. N�o havia fotos, m�sica, v�deos, voz. Os dom�nios eram raros. Mas tamb�m n�o precis�vamos de nenhum pontocom ou pontoedu para enviar nossos e-mails. Em 1987, eu ficava 14 horas por dia, pendurado na NSFnet (National Science Foundation), a predecessora da Internet. Eu usava o Telnet (acesso remoto) e o FTP (protocolo de transfer�ncia de arquivos) para me conectar com uma d�zia de centros de computa��o, como o Laborat�rio Nacional de Los Alamos, na Calif�rnia. No livro �A Hist�ria da Internet�, de Christos J. P. Moschovitis, h� muita coisa a meu respeito. Atualmente, dedico-me a distribuir meus artigos para jornais e revistas online e impressos.
De que forma Internet beneficia inventores como o senhor?
Pessoalmente, n�o tenho outra escolha a n�o ser estar sempre online. Os supercomputadores que eu programei est�o a quil�metros de dist�ncia e s� posso alcan��-los via Internet. Al�m disso, conquistei novas audi�ncias. Em dias normais, recebo e-mails de uma pequena cidade africana pedindo-me ajuda ou de um inventor � cata de orienta��o. Para mim, a Internet � boa e m�. � boa porque me permite trocar id�ias f�rteis com pessoas que nunca vi na vida. � m� porque fragmenta meu tempo, me torna ansioso e me for�a a responder e-mails de d�vidas e mais d�vidas sobre como obter sucesso profissional. Por causa disso, minha mulher me apelidou de �Dear Abby� (coluna de grande sucesso popular, publicada por centenas de jornais norte-americanos e assinada por Pauline e Jeanne Phillips, m�e e filha, respectivamente).
Quais s�o os seus sites favoritos?
Adoro sites de jornais estrangeiros. D� a impress�o de que estou viajando por esse mundo afora. Tenho um pouco de dificuldade de ler em portugu�s, mas assim mesmo acessei o portal do Estad�o que me pareceu bem din�mico.